"Do peso de viver à leveza de criar" - Parte 1 - Isabel Marques
“Do peso de viver à leveza de criar:
função social do ensino de dança hoje”
Profa. Dra. Isabel A. Marques
Instituto Caleidos
PARTE 1
Para começar, pelo final
Num dia de aula inaugural, de abertura, de projetos e propostas futuras, começarei pelo final, com uma história de formatura, de encerramento, de olhar que se curva para a história, passada.
Há alguns anos fui convidada para ser paraninfo da turma de Licenciatura em Dança da UNICAMP. Neste mesmo ano, o patrono da turma foi o Prof. Dr. Luiz Carlos Freitas, então diretor da Faculdade de Educação, educador nacionalmente conhecido por suas posturas políticas de esquerda, centradas na luta da educação contra a ditadura, a favor da consciência e da crítica social.
Ao proferir seu discurso, o Prof. Luiz Carlos, entre outras coisas, enfatizou a importância da educação não só em momentos de ditadura, mas na reconstrução do Brasil. Terminou sua fala com uma pergunta que será moto de minha aula hoje: “minha geração lutou e conquistou para esse país a democracia. O que trará e fará a geração de vocês pelo Brasil?”
Os presentes responderam com um silêncio profundo, imóvel, fazendo com que caísse sobre todos os formandos, professores, familiares e amigos uma carga pesada, imensa, cristalizada, impenetrável. É certo que nos fez pensar, olhar para o futuro, mas com o peso quase intransponível do passado.
Pessoalmente, tendo nascido durante o período da ditadura, portanto literalmente entre a geração que a combateu e a geração que nasceu na democracia, naquele momento só tive uma certeza: o Brasil de hoje não precisa, não quer e não pode perpetuar o peso de viver, a carga de educar, o fardo de fazer e pensar arte. As ações combativas extremistas, as atitudes fechadas e inflexíveis, as propostas educacionais radicais, violentas, universalizantes, a produção artística densa e unificante, importantes e necessárias às gerações que combateram a ditadura, não fazem mais sentido no mundo de hoje.
Juntamente com esta certeza, permaneceu a questão: qual o papel da minha geração (anterior a de vocês)? Qual o papel social das gerações que educo hoje? E, com isso, uma segunda pergunta: Será que os problemas sociais, políticos e culturais do Brasil da época da ditadura acabaram com o advento da democracia, alterando, assim, nossa função social como artistas e educadores? Muito pelo contrário, sabemos que estes problemas foram acirrados e outros vieram à tona.
Leveza mundo
Para mergulhar nessas profundezas, volto-me mais uma vez a Ítalo Calvino, escritor cubano radicado na Itália, agarrando-me em uma de suas seis propostas para o próximo (este) milênio: a LEVEZA. Para Calvino (1990), este milênio traz consigo a possibilidade conhecer sem oprimir, de criar sem se deprimir, de viver sem se arrastar. A leveza permite voar por mundos desconhecidos, expandir horizontes, viver o intangível. Com Calvino, podemos chegar à conclusão de que a leveza deveria ser um dos elementos constituintes das práticas e reflexões da arte contemporânea e, consequentemente, da arte na escola.
Ainda impregnados por pensamentos e ações políticopedagógicas de uma época em que o peso assume somente valor positivo, a onda “light” (leve) em situação educacional ainda é vista com menosprezo, deboche, desconfiança. Confusamente associamos propostas de ensino “leves” ao laissez-faire, ao divertisement, à falta de conteúdos e à ausência de programas. Ao contrário, a leveza que defendo para a arte e para o ensino contemporâneos está fortemente calcada na articulação de competências educacionais e artísticas, pois “a leveza [...] está associada à precisão e à determinação, nunca ao que é vago e aleatório” (Calvino, 1990, p.28).
Calvino, apoiado em Paul Valéry, distingue duas formas de leveza no tempo atual: a leveza pluma, superficial, sem consistência, vaga, e a leveza pássaro, complexa, articulada, consistente, precisa.
Assim como o pássaro, a dançarina sabe em seu corpo a complexidade necessária para que a leveza se torne visível e concreta. O bom humorista também sabe distinguir as risadas momentâneas, frágeis e superficiais das risadas que nos fazem pensar e refletir sobre nossas vidas (é só notar a diferença entre os programas “Sai de Baixo” e “Comédia da Vida Privada”, da TV Globo). O professor e o artista que têm propostas artísticas e educacionais éticas, responsáveis e compromissadas com nosso tempo, portanto, estão irrevogavelmente comprometidos com a leveza pássaro.
Cidadãos do mundo que somos, pouco sabemos hoje o que fazer diante da miséria material e humana, da corrupção avassaladora, da mixórdia política, das ameaças cotidianas. O tão esperado século XXI estreou com ameaças de conflitos mundiais, com incertezas, com promessas não cumpridas. A realidade social mundial transformou-se na grande Medusa, na Górgona mitológica, mulher com cabelos de cobras, monstro amedrontador que faz petrificar seres humanos a um simples olhar. Tal qual na mitologia, a mirada direta para a realidade política, social e cultural brasileiras nos petrifica, nos imobiliza, nos traz impotência e insegurança.
Diante da Medusa, desta situação de iminente petrificação e morte, as reações são muitas. Não olhar (mesmo sabendo que existe), ignorar (fingir que não existe), olhar de longe (e achar que nada tem a ver com isso). O mundo, as relações sociais, as políticas culturais, os conflitos, assim, não dizem respeito ao meu trabalho e ensino.
Ou seja, como professor, em sala de aula de dança posso não olhar para o mundo de hoje (mesmo sabendo que ele existe) e continuar ingenuamente ministrando aulas de balé clássico tal qual se fazia no século XIX, ou ainda os repertórios populares brasileiros do tempo do Império; posso ainda ignorar o mundo (fingir que ele não existe), propondo aulas de “dança criativa”, criando uma grande “bolha imunológica” através da dança para que meus alunos não se contaminem com as atrocidades sociais; uma terceira opção é olhar o mundo de longe, tocando aqui e ali em questões sociais quando são trazidas pelos alunos, sem, contudo, enfrentá-las.
Mas lembremos como Perseu exterminou a Medusa: munido do capacete oferecido pelas ninfas, que o deixava invisível, das sandálias aladas que lhe permitiam elevar-se às nuvens, de um escudo polido e de uma espada, Perseu decepa a cabeça da Medusa, que se petrifica ao olhar para ela mesma no escudo polido interposto por Perseu. O olhar indireto para a Medusa-mundo, a leveza e a rapidez do caminhar, a transparência incorporada, permitiram a Perseu enfrentar o monstro de outra forma. Perseu recusou-se a olhar para a Medusa, sem, contudo, recusá-la (Calvino, 1990).
Do mesmo modo, podemos pensar nas relações educação–mundo nos dias de hoje: recusar, ignorar, olhar o mundo de longe em nossas práticas artístico-educativas trariam uma falta de compromisso inaceitável para aqueles comprometidos com a re-construção do Brasil e do mundo. Podemos, contudo, olhar indiretamente para ele. Como Perseu, levemente voar para outro espaço, “mudar de ponto de observação, considerar o mundo sob uma outra ótica, outra lógica, outros meios de conhecimento e controle” (Calvino, 1990, p.19).
Paradoxalmente, em um mundo pesadíssimo, é a leveza que nos permite enfrentar o peso de viver. Já conhecemos a gravidade do peso, e é justamente a gravidade que nos permite encontrar a leveza, a leveza pássaro.
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Texto da aula inaugural do curso de “Pedagogia da Arte” da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, proferida em Montenegro no dia 10 de abril de 2002 por Isabel Marques e posteriormente publicada na Revista da FUNDARTE. ANO I, Vol. I/II, no. 02/03.
Referências bibliográficas
Calvino, I. (1990). Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Cia das Letras.
Marques, I. (1999). Ensino de dança hoje: textos e contextos. São Paulo: Cortez.
Abrão, B. e Coscodai, M. (org) (2000). Dicionário de Mitologia. São Paulo: Editora Best Seller.