O desenvolvimento do trabalho artístico do Caleidos Cia. de Dança, tendo origem na Educação, floresce como arte, e produzindo arte, educa.

20 anos! E muito a comemorar. Inscrever uma cia de dança na fronteira entre arte e a educação foi e é um desafio imenso. Desbravar por meio da pesquisa acadêmica e da produção artística, da prática docente e de propostas estéticas um campo que até então não existia, exigiu o esforço de muitos profissionais da dança e da Educação; contou com a coragem de muitos gestores da Educação e curadores de arte; com a disponibilidade de milhares de espectadores e estudantes, mas sobretudo, exigiu e contou com o esforço, a coragem e a disponibilidade permanentes de Isabel Marques e Fábio Brazil, fundadores e diretores da companhia.

Do grupo de pesquisa iniciado por Isabel Marques em 1996, então docente da FE-UNICAMP, às premiações diversas e ao reconhecimento nacional e internacional, pouca coisa mudou em relação àquilo que fundamenta o trabalho da cia. O Caleidos Cia. de Dança, desde 1998 sediado em São Paulo, permanece em estado constante de pesquisa e questionamento em relação ao campo que desbravou e onde a companhia se inscreve como fonte de arte e conhecimento.

Há 20 anos, a interação com o público não era moda ou prática corrente na dança; há 20 anos, a relação da dança com as escolas se limitava a apresentações esporádicas para estudantes desinteressados; há 20 anos, pouquíssimos professores buscavam conhecer dança para torná-la uma prática educacional; há 20 anos, raríssimos artistas se interessavam em pensar suas práticas de aula em termos educacionais; há 20 anos, a maioria dos gestores da Educação simplesmente desconhecia as possibilidades da dança em situação escolar; há 20 anos, o diálogo artístico com o público e o acesso à linguagem da dança pouco movia os artistas. Há 20 anos o Caleidos se colocou na rota destas conquistas e na contramão das práticas e costumes vigentes de interfaces entre a educação e a arte.

O desenvolvimento do trabalho artístico do Caleidos Cia. de Dança, tendo origem na Educação, floresce como arte, e produzindo arte, educa. Os princípios educacionais da dialogicidade, da problematização, do compromisso com o conhecimento e com o outro, da celebração do encontro, da formação de redes de relações e sentidos multifacetados são elementos estruturantes das práticas artísticas da cia.  Esses princípios não existem como um slogan/etiqueta colocados sobre as produções artísticas, mas são o alimento artístico, a prática diária, o aprimoramento técnico e o posicionamento político e intelectual da cia.

Hoje, olhando perspectivamente: após 21 espetáculos encenados e 5 livros referenciais para área; depois de dezenas de artigos lidos e citados e prêmios nas duas áreas de atuação; com milhares de alunos/professores formados em cursos livres e dezenas de profissionais da dança transformados pela participação no Caleidos, poderíamos concluir que o campo está aberto e que a dança/educação é um terreno consolidado. Não é.

Se o cenário de 20 anos atrás era incerto, o de hoje é perigoso e delicado. Como a dança, enquanto arte, se relaciona com a Educação de modo geral? O campo da Educação para o artista é somente uma “contrapartida social”, público garantido e fonte de renda? Basta ser artista para poder ensinar? Trabalhos de dança dirigidos à comunidade escolar devem ter outras características? Que conceitos de educação e de arte estão se instalando nas escolas/projetos por meio da ação de companhias de dança?  Há 20 anos, essas foram algumas das perguntas que geraram as pesquisas de Mestrado e Doutorado das quais ainda se nutre o Caleidos Cia. de Dança. Há 20 anos, as respostas a estas questões eram grandes lacunas e grandes ausências. Hoje entendemos que estas perguntas ainda são pertinentes, o projeto de dança/educação do Caleidos Cia de dança ainda é relevante, mas as respostas são outras.

Na busca de novas respostas, novas questões emergem e os processos de pesquisa, ensino e criação do Caleidos Cia. de Dança permanecem sendo cultivados como um bem comum partilhado por artistas, estudantes e professores.

           Por mais 20 anos, Caleidos, evoé!

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